domingo, 17 de maio de 2020

Não é bem assim

Me falaram que antes era ao contrário
Eu lá, eles cá
mas não desta forma.
São três da manhã em algum lugar de mim
que enche luvas descartáveis como balões
Anunciando uma festa que nunca acontecerá
Em devido canto de janela envolto na cortina esperando
os convidados que nunca vão chegar
com coração palpitante na garganta
e todo um roteiro pronto na cabeça:
De, quem sabe, as coisas acontecem diferente,
E pela porta entra, sem bater, como filme clichê, na sala de estar
na platéia ou qualquer lugar
E bem na minha frente o tempo para.
Pra nunca mais
Ou pra sempre.

Em data específica, ou não, os números continuam os mesmos
Ou piores, pro meu lado
Tendenciosos a se acumular em cima do meu cobertor
Tornando denso e pesado
Impossível de se levantar ao soar do sino
Ou dos sorrisos distantes.

Eu vou embora
De volta pro começo, mesmo com meio diferente
Indiferente à mim.
Eu vou embora
Pro quarto em que risquei minha morte
E jurei não voltar
Vou andar
Pelas ruas que odeio
Em que nem se pode andar sem rumo,
Todos os caminhos aqui sei de cor
Pois terminam no canto da caixa,
na casa no centro de janela bonita
E 17 na urna.
Eu vou embora
Porque nem lá é meu lugar
E ainda custarei saber aonde é.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Abstinência

Minha casca e sementes se desmancham ao amanhecer
depois que os sonhos das noites passadas se apagam
E o laranja do céu por algum motivo
entre memórias distorcidas ou não
Faz me sentir assim

Às saudades eu digo basta
já que hoje minha redoma não é de sabão
mas como bolhas e calos nos pés
De tanto andar de volta àquele lugar.

Até as músicas de outra era recortam dessa revista velha
Guardada na cabeceira da minha cama
Em que releio as noticias antigas
E reconfortam as de agora, lá fora

E cada giro que vira noite e dia
E eu viro as madrugadas em vão
A cada vez mais, menos sentido há em se deliciar na tontura, tortura
de rodopios infinitos
Tal como redemoinho querendo dançar.

Mas redemoinhos não dançam
E eu não me canso
de pensar
- que esse giro talvez me leve de volta
Ao início
Invés de ser o meu fim.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Inefável

Bem no fundo da minha cama
Bem no ponto em que me afogo
Me afaga um caminho
pra tudo que me faz, fato e tato
Em pedaços do meu todo
Riso e modo.

Às vezes há muito de mim
E inundo-me
Unindo-me a mim
Sem ser redundância
Ou mesmo incoerência de se afundar para levantar.

Do verso da cama

A minha versão assim, de mim
é tensão lida
De uma gramática torta, mas às vezes engraçada
na ponta da minha língua
Perdida em versões e versos e verões
Aliterações e alterações na bula
Que mais soa como lâmpada.

Mágica ou de luz,
desde que em minhas mãos.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Os limites do que foi um dia

Engraçadas as datas que são passíveis de
c o m e m o r a ç ã o
Não estou comemorando, mas datando que sao dias e meses completos
que tudo está assim.
Os numeros mudaram
e hoje o dia consegue começar bem, longe do caos instaurado em todo local
e sobrevivente às memórias doídas, doidas.

Algumas fotos das quais não me lembrava
detalhes
e pontos de ar na falta de.

Meu remédio acabou
e talvez seja mais água pra mim do que a mesma.
Meu remédio foi tirado de mim
e isso deveria ser comemorado
mas a dependência ou a falta desta não importam
desde que o coração não pule pra fora do peito
o cabelo caia, por força maior ou não
e o corpo se rasgue em expansão.

Quando o relógio supostamente bateu meia noite e o dia 21 chegou
nem notei
enquanto contava meus desejos de trilha musical
de como brinco, ou nem tanto, que quero me casar.
Hoje já não sei se ainda tenho esse desejo
mas gosto de pensar nas músicas dos filmes do Shrek e o Fantasma da Ópera guiando os olhares
atentos aos meus olhos em uma comemoração do amor,
dos dizeres pra sempre.
Não sei se ainda acredito em nada disso.

Mas tudo bem, mesmo quando não está.
Tá tudo bem quando a escrita é só desabafo
e os versos não são necessários, poéticos, belos
porque há tempos não são
há tempos não sou.

terça-feira, 17 de março de 2020

Minhas fronteiras e vulcões e terremotos

Visto minhas luvas, não mais toco em ti
Teu corpo tão longe do meu, independente das crises
no mundo ou no teu quarto
nos teus olhos ou nos meus.

Toda a cor que me falta, mas mãos, na pele que corre em meu corpo
me despe ingrata, indigna de reflexo
em qualquer espelho quebrado nesse caminho
até teus pés, até o cerne dessa história
que insiste em não me deixar dormir
e invade meus sonhos, quando consigo.

O preto e o branco na minha superfície batalham pelo espaço
entre os traços de um passado conturbado e as manchas que ele trouxe.
Sou roupa desbotada no fundo da máquina
e pingo no varal todas as lágrimas e drinks e dores.

O que resta de cor tende a escorrer, mas às vezes
tal como tudo há de ser, forma mares e ondas bonitas no chão do banheiro antes de ir embora
-como ti.



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Hoje

No fundo da casa em que nao mais moro achei uma caneca minha
E outra, e outra
Todas ligadas em uma memoria só
A um habito que perdi
Uma história virando história.

Minhas palavras as vezes machucam
Tanto quando as bebo em frente ao espelho
Quanto as derramo em terras distantes.
Não foi porque as suas me machucaram que eu deva fazer o mesmo
Mas as fiz, em atos e palavras, pensamentos e omissões
Mas tudo bem

Eu vejo que tentei novamente me enganar
Mas sou quem sou
E possivelmente sempre será assim,
Mas ao entender isso vejo como esta tudo bem
Eu comigo e com você
Em formas diferentes da qual um dia já foi.
Hoje já não me dói
Nem odeio
Hoje eu lhe tomo como remetente mais uma vez
Mas não mais de uma carta de amor.

E Ta tudo bem

domingo, 15 de dezembro de 2019

Sei que não te disse

Há noites que meus sonhos se repetem
Entre tramas e locais diferentes
Sombras e cores
Uma única constância e certeza,
Uma única voz.

A minha cama eu já mudei muitas vezes de lugar
pintei a parede
cortei o cabelo,
Mas as costas ainda doem 
imploram pela mensagem 
Massagem
Passagem 
Pra além do que eu possa ser.

Há dias em que os ventos se reunem assim, sem me avisar
Sem deixar de levar as folhas pra longe
em terra vermelha, pele roxa e marcada
e me leva, me lava
pra longe de onde eu posso estar.
de onde eu queria estar
de onde eu preciso.

A flor matinal do leste sumiu,
o céu de primavera se acabou
a musa celestial morreu.

E todas as palavras que eu escrevo acabam sendo iguais
descartaveis como eu bem sei e sou.
Chega dessa dor.