sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

certezas

De alguma forma, eu sei.
Eu pressinto o que está acontecendo pra lá 
Consigo quase ver os olhos e sentir o cheiro 
E passa por mim como em um palco 
Nebuloso, empoeirado de memórias velhas e parecidas 
De tinta descascada no fundo da gaveta
Ou já jogado no lixo algum dia do passado.

Eu sei. Eu sei, mas não sou 
Muito menos sua, quem dirá minha
Nem mesmo relance no meu espelho
Nem mesmo cicatriz na minha pele.

E tudo segue sem mim 
De uma noite pra outra, riscando no calendário esperando por algo
Que isso, sim, não sei o que é
Só sei que tudo já acabou, tudo.

Como se os filmes que ainda restam, eu já vi 
E mesmo se não tivesse visto, seriam iguais aos que já vi
Ao que já vivi. Tudo.
Já vivi tudo 
Porque aparentemente não tem como se sair daqui 
Dessa cidade, dessa pele, dessa vida e prateleira suja.
...

E noite após noite se concretiza a certeza, ainda sem data
De que a faca que me abre trará um marco
Uma marco de mudança na vida
Pois talvez seja.
Cada noite eu não consigo evitar de saber 
De alguma forma
Que será assim: páginas coladas e memórias finitas 

Não há mais o que esperar 
Nada de novo sob o solo vermelho 
Nada de novo nos cabelos em chamas 
Nada, de novo, que sobra no meu peito 

E eu tenho certeza do que aconteceu lá longe de mim 
De novo 

E eu tenho certeza essa noite antes de dormir 
Eu vou 

Eu vou

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

aqui dentro ecoa

 Aqui no meu quarto a chuva é bem barulhenta

e não deixa ouvir as batidas 

De que tudo mudou de lugar 

Meu espaço no canto daquela sala 

Na esquina da minha mente com minha inquietude.


O sono me derruba 

Três lances de escada 

Abaixo 

De onde já estive.

Não é um pódio, apenas degraus altos demais pra se subir 

E escalar, escapar de outra dose abusiva 

Noite adentro nas manhãs mal dormidas.


Estou envolta num plástico bolha 

Cheia de manchas e manias dispersas 

Irregulares na pele 

Tese ou mapa antigo pra esse local

que insiste em me expulsar.


Minha garganta aguarda

no seco ou gelado, quais os comprimidos descerão

junto do corpo ao chão.

Certa vez me intitulei assim...e no fundo sabia

que sempre fôra

fora daqui

dessa jaula de barras espessas e frias -

inconsequentes


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

outra madrugada desatando nós

Eu sempre rabisco essas linhas vermelhas 
Entre dedos, mãos e caminhos 
Sem mesmo saber ao fundo como funciona, mas crendo.
Eis que então, depois de outro risco cheio de nós 
Eu lembrei de um momento.
Que, entre tantos outros que me vêem à memoria hora ou outra, passou despercebido por muito tempo 
Ate porque já faz tempo 
Até porque eu nem sei mais 
Mas lembrei de quando tomei o ultimo gole de coragem da noite, como naqueles copos rasos de whiskey 
Ou pote de doce que precisa ser rapado com dedo
Misturei a ultima gota de coragem com a única dose de falta de noção 
E aquela fala foi o gatilho necessário 
Na época como agora 
Mas hoje não tomarei ação, nem coragem ou sequer tristeza 
Nem esperarei o terceiro dia pra ressuscitar 
Mesmo que as minhas noites sejam em claro: a Lua nao está aqui 
Muito nao está aqui, porem eu há de ser 
Aquela que continua comigo 
Nos rascunhos e linhas tortas 
Como os dentes tortos 
Ou os passos, as linhas dessa historia 
Que virou estória 
Ou sempre foi 

Fôlego 

Mas nao pro choro, nao hoje
Não porque seja um dia especial: porque não é.
Mas porque o tempo só segue o caminho à morte 
E ela já veio arrebentar a linha vermelha 
Se é que ela existe 
A morte ou a linha 
O amor ou a minha - morte 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

me diz

O tempo não deveria, dessa vez, estar a nosso favor?
A feridas não se curam?
''como pode falar de agora?''
Eu que tanto sou e venho da Lua
cheia de ti, dela, de mim,
canto e choro, morro e vivo novamente para morrer mais uma vez
sob o céu sem lua

eis que essas palavras me ferem
Algumas imagens me doem de formas que não esperava

São tintas velhas no porão,
no canto do palco em que a fumaça forma seu rosto
mesmo incerto.

Uma noite, uma música
uma nota inalcançável
sem fôlego ou comparações.

Finais tristes são os mais belos
cortados pela corda ou arma
num vermelho que mancha meu vestido branco:
não de casamento, mas personagem, mais uma vez.

Anjo da música, cante a canção
leve-me pelo rio debaixo de sua capa
em que homem e mistério estão,
vinde uma história tão desentendida
e dolorida
quanto bela.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

1° de Julho

Quase sem querer 
Os acontecimentos se alinharam mais de uma vez
Como uma santíssima Trindade das mágoas,
Em mesma data,
Por três anos seguidos,
morri.

Cada uma delas sob o frio extremo da noite 
seus ventos que levavam embora as festividades juninas 
para trazer o inevitável.

Qual foi a ultima vez que você chorou? 
Minhas lágrimas me inundam e renovam toda semana 
E por mais que as datam tenham passado: 
Se renovam.
 
Sê! 
E quem renova? 
Quando cada vez mais perto chega a se completar 
Mais uma vela no bolo 
E dedos contando no bolso 
Quanto tempo falta para o fim.

Algumas datas machucam 
Mesmo como algemas 
No canto, no chão 
Em algum lugar esquecido, mas presente 
Embrulhado com fita
Em volta do pescoço.

Existem forcas e forças que trabalham juntas 
A favor do chão,
em que se deita e derrama 
o que for que doa 
nesses tempos estranhos.

sábado, 6 de junho de 2020

tempo de se expor

É quase engraçado
que durante o êxtase eu sinta um perfume 
E veja com clareza os dedos virando as páginas 
E sinta o gosto 
E veja o espaço 
E chore 
tudo junto nos poucos segundos que quebro o silencio da madrugada 
quando o gemido foge da minha boca.

Sinto um calor queimar-me de dentro pra fora 
O suor riscar minhas pernas 
E o cabelo grudar no rosto.
Sinto por não ter aqui onde apoiar 
Pra não cair 
de volta pra realidade.
Ou da cama.

A fraqueza dos meus braços retorna 
Como as pontadas no meu peito 
Ora doloridas, ora não.
Ora dor requerida.

E o sono me toma nos braços 
Pra quem sabe um outro desfecho 
Quando os olhos estão fechados 
e não se revirando ou chovendo.


domingo, 17 de maio de 2020

Não é bem assim

Me falaram que antes era ao contrário
Eu lá, eles cá
mas não desta forma.
São três da manhã em algum lugar de mim
que enche luvas descartáveis como balões
Anunciando uma festa que nunca acontecerá
Em devido canto de janela envolto na cortina esperando
os convidados que nunca vão chegar
com coração palpitante na garganta
e todo um roteiro pronto na cabeça:
De, quem sabe, as coisas acontecem diferente,
E pela porta entra, sem bater, como filme clichê, na sala de estar
na platéia ou qualquer lugar
E bem na minha frente o tempo para.
Pra nunca mais
Ou pra sempre.

Em data específica, ou não, os números continuam os mesmos
Ou piores, pro meu lado
Tendenciosos a se acumular em cima do meu cobertor
Tornando denso e pesado
Impossível de se levantar ao soar do sino
Ou dos sorrisos distantes.

Eu vou embora
De volta pro começo, mesmo com meio diferente
Indiferente à mim.
Eu vou embora
Pro quarto em que risquei minha morte
E jurei não voltar
Vou andar
Pelas ruas que odeio
Em que nem se pode andar sem rumo,
Todos os caminhos aqui sei de cor
Pois terminam no canto da caixa,
na casa no centro de janela bonita
E 17 na urna.
Eu vou embora
Porque nem lá é meu lugar
E ainda custarei saber aonde é.